Leituras: A Garota Dinamarquesa – David Ebershoff

Em 04.04.2017   Arquivado em Música e Livros, Resenhas

Oi, pessoal! Tudo bem?

Hoje vim fazer a resenha de uma leitura que já fiz há um bom tempo. O livro Garota Dinamarquesa foi o primeiro ebook que li no meu Kindle, que comprei no ano passado.

Garota Dinamarquesa Kindle

#pracegover uma mão, à esquerda, segura um kindle da cor preta. Na tela do aparelho, a foto em preto e branco da capa do livro “A Garota Dinamarquesa”. A capa é composta de uma imagem dos rosto de duas mulheres que sorriem levemente. Elas estão com os rostos muito próximos, a que está à esquerda está de perfil e olhando para baixo, a que está à direita olha para frente. Na capa, também pode-se ler o nome do autor, David Ebershoff, centralizado na parte superior da tela, e centralizado na parte inferior lê-se “A Garota Dinamarquesa – O livro que inspirou o filme”.

Confesso que ainda não vi o filme porque fiquei chateada com o fato da protagonista ser interpretada por um homem cisgênero e não por uma mulher trans. Se A Garota Dinamarquesa fala da vida de uma mulher transgênero, por que colocar um homem cis para fazer o papel principal? Pelo que vi na época do lançamento do filme, a justificativa da produção foi o fato de haver cenas de Lili antes da transição, quando ainda vivia como Einar. Sinceramente, achei esse argumento bem fraco considerando que existem pessoas trans que optam por não fazer a cirurgia de redesignação sexual e considerando também o orçamento e estrutura disponível para a produção do filme em questão. Seria completamente possível fazer cenas de antes da transição de Lili com mulheres trans que já passaram por essa etapa, mas enfim, ainda não vi o filme e o assunto desse post hoje é o livro que inspirou o longa-metragem.

O livro é um romance baseado na história real de Lili Elbe, uma das primeiras mulheres trans a passar pela cirurgia de redesignação sexual. Apesar de trazer fatos importantes sobre a vida de Lili, a obra é totalmente fictícia e confesso que, por não estar habituada a ler romances “inspirados” em casos reais, no início fiquei bem confusa sem saber o que retratava a realidade e o que era ficção.

Esse aspecto ficcional fica mais claro na entrevista com o autor, no final do livro, onde ele fala de suas fontes de pesquisa, sua inspiração para escrever a história, e também o motivo de ter mudado o nome original de Gerda Wegener para Greta ao escrever o livro.

A narrativa é ambientada em Copenhague, na Dinamarca, no início dos anos 20. O autor trata o tema de forma delicada, com um vocabulário bem acessível, leitura fácil e bastante descritiva (bastante mesmo).

Lili, cujo nome de registro era Einar Wegener, se identificou com o gênero masculino por boa parte da sua vida. Apesar do livro tratar quase que exclusivamente do processo de transição de Lili e da sua relação com a companheira Greta, a trama aborda também alguns aspectos da vida de Lili quando ainda se designava Einar: sua infância, o grande reconhecimento e sucesso por seu trabalho com pintura e ilustrações de paisagens, e também seu casamento com a artista Greta.

O processo de autodescoberta de Lili começa quando Greta, ao não encontrar uma modelo para terminar um de seus quadros, pede que Lili (que se identificava como Einar na época) vestisse roupas consideradas femininas e posasse para ela. A partir daí, Greta demonstra seu apoio incondicional a Lili no processo de mudanças que viriam a seguir.

Greta é uma mulher incrível! A relação de Greta com Lili é inspiradora, e a cumplicidade entre as duas emociona. Quando se trata de personalidade, Greta e Lili são opostas. Lili é meiga, comedida, tímida, enquanto Greta é viceral, impulsiva, extrovertida… O amor que elas tem uma pela outra é realmente comovente.

Lili, apesar de sua aparência frágil, mostra que é muito forte e corajosa ao passar por uma cirurgia de redesignação de gênero no início do século passado. Inclusive, fica muito claro que todo o processo de transição é muito doloroso para Lili tanto fisica, quanto emocionalmente. Greta também demonstra muita empatia e cuidado apesar da sua impulsividade.

Einar e Lili são tratados como duas pessoas diferentes (e o são, de certa forma), até mesmo pelos personagens da trama. Em alguns momentos, inclusive, Lili passa algumas horas do dia como Einar, e outras como ela mesma. Lili não carrega as lembranças do passado de Einar, assim como Einar não lembra de nada do que acontece com Lili. É como se Lili fosse “tomando conta” do corpo de Einar de forma gradual até ele deixar de existir.

Imagino que essa abordagem tenha sido uma alternativa para demonstrar de forma mais clara os conflitos internos de Lili. De acordo com o autor, era desse jeito que Lili (da vida real) se percebia, e por isso resolveu incorporar à sua personagem a visão que Lili tinha a respeito de si mesma naquela época, e não a visão que teríamos dela nos dias de hoje. Mesmo assim, ainda não tenho certeza se gosto dessa dualidade tão acentuada hehe Entendendo as razões do autor para construir a protagonista dessa forma, mas a sensação que eu tenho é que essa dicotomia passa a impressão de que gênero é uma espécie de interruptor que liga e desliga, sabe? E não é bem assim que as coisas funcionam.

Achei que a narrativa às vezes se torna um pouco cansativa pelo excesso de detalhes, mas gostei da história. Só achei esquisito final porque fiquei com sensação de que o livro acaba do nada. Não sei se por não estar bem habituada com livros digitais acabei não percebendo que a leitura estava chegando ao fim, mas o capítulo acabou e eu fiquei achando que teria mais alguma coisa… haha tive que voltar e ler o final de novo.

Com certeza vale a pena a leitura, e também a pesquisa sobre a vida real e obras de Lili Elbe e Gerda Weneger.

Você já leu A Garota Dinamarquesa? O que achou? me conta nos comentários!